Nossa percepção de mundo e evangelho

Quem é, então, Jesus de Nazaré

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Ictus

Este trabalho abordará o capítulo quinto do livro O encontro com Jesus Cristo vivo, publicado pela Editora Paulinas, escrito pelo professor Alfonso Garcia Rubio. RUBIO possui mestrado em Teologia pela Pontificia Universidade Gregoriana (1968) e doutorado em Teologia Sistemática pela Pontificia Universidade Gregoriana (1973). Atualmente é professor titular da PUC-RJ. Tem expressiva pesquisa na área de Teologia, com ênfase em Teologia Sistemática, atuando principalmente nos seguintes temas: Antropologia teológica e Cristologia. Dentre os diversos livros publicados destacam-se: “Unidade na Pluralidade. O ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs”, pela Paulus e “Cristologia”, pela PUC/Rio. Em 2009, recebeu o título de Professor emérito da PUC/Rio.

RUBIO propõem para o capítulo a pergunta que ainda é feita repetidamente por vários homens e mulheres: Quem é Jesus? Ao olhar para os escritos do Novo Testamento vemos os Evangelhos e as Cartas, tanto Paulinas quanto as Joaninas, que apresentam Jesus de uma forma diferente. Naquele tempo todos tinham a percepção e a memória do homem Jesus de Nazaré. Conheciam sua família, viram Jesus crescendo e brincando pelas ruas, sabiam de suas limitações e provavelmente muitos haviam comprado algum móvel na carpintaria da família. Logo, o que esses textos apresentam para seus leitores não é um tratado de história, mas sim, uma apresentação da pessoal divina de Jesus. Por isso, o que na verdade é um “título”, com todo um rico significado teológico, hoje é tão “misturado” o com o Jesus Cristo.

Assim, o autor nos apresenta logo de início o conceito de Cristo. O termo Cristo tem seu paralelo em hebraico, Messias, ou seja, ungido. Logo, o Cristo, traz toda uma lembrança histórica e uma esperança messiânica com sua forte conexão escatológica. Este seria o enviado de Deus com a missão de restaurar e libertar Israel. RUBIO apresenta neste ponto a ambiguidade do título Messias. Há duas formas possíveis para a compreensão do Messias e essa forma reflete muito do comportamento do povo e da decepção de alguns ao verem Jesus. Parte do povo esperava o Messias Rei, militar, que entraria no cenário reconquistando e vingando todo esse período de opressão. Um Messias poderoso. Outra parte, talvez a menor, entendia Messias Servo, servo de Iahweh, que vem para servir o povo e as nações e não para condená-las. Essa segunda forma, não atende a expectativa de muitos e na verdade, continua causando escândalo até os dias de hoje. Já podemos neste momento refletir sobre qual destes entendimentos do Messias, Jesus fez questão de ser associado? Isso certamente deve fazer repensar muito de nossa prática cristã atual.

O “Servo de Iahweh” revela em Jesus aquele que veio para ser o homem da substituição-solidariedade. Isso, explica o autor, é a vida de Jesus, totalmente “vivida para o Pai, numa entrega filial, e para os irmãos, no amor-serviço e na solidariedade”. Desta forma, Jesus viveu esta condição por nós. Porém, não significa dizer que estamos isentos de responsabilidades. O que Jesus Cristo traz para todo o homem e mulher é a possibilidade de ser “nova criatura”. Somos assim convidados a perceber no Cristo o meio, a possibilidade de uma nova vida. Devemos olhar para Jesus e ver, em seu sacrifício solidário e substitutivo, a redenção e a providência de Deus.

O que chama atenção ainda neste aspecto da solidariedade-substituição é o fato de não ser paternalista e protecionista. Pelo contrário, a ação de Cristo nos chama para a responsabilidade, pois, como o próprio autor destaca, “substituir não é tirar o lugar do outro”. Temos assim a possibilidade de assumir o lugar que é somente nosso. Assim, destacamos do texto:

A solidariedade-substituição de Jesus Cristo, que realiza a reconciliação, não tira nosso lugar na história da salvação. Ao contrário, torna possível nossa libertação do fechamento em nós mesmos para a abertura ao Deus do Reino e para o amor-serviço aos irmãos.

Outro título que usamos sobre Jesus é “Filho do Homem”, ou seja, novo Adão. Este termo expressa de maneira bem simples, porém com imensa significância teológica, a humanidade de Jesus.

É interessante destacar, que muitos biblistas apontam sendo esse título, o único que o próprio Jesus usou diretamente. Isso pode ser apontado, pois, esta expressão aparece por cerca de 80 vezes e sempre vinculado a Jesus. Provavelmente a intenção deste título, seria a de apontar para a ambiguidade do mesmo, pois aponta tanto para a condição humana de humilhação quanto para a exaltação, a partir da ressureição.

Devemos destacar ainda no título cristológico “Filho do Homem” a percepção do que é verdadeiramente ser humano. Este aspecto é sempre desafiador, pois hoje, temos relativa facilidade em afirmar Jesus como sendo Deus, porém, ficamos bem desorientados ao afirmar a humanidade de Jesus. Dizer que Jesus era humano como nós, com limitações, sentimentos e as mesmas necessidades que eu e você sentimos, faz com que alguns dos nossos pensem em diversas possibilidades de pecado e assim, inviabilizando a missão de Deus. Porém, a revelação de Deus em Jesus, consiste justamente nisso: Jesus é o segundo Adão, nele podemos ter o modelo do “novo homem” trazido ao mundo. Por isso se afirma que “Jesus foi em tudo tentado, mas em nada pecou”. Paulo também percebe essa novidade em Jesus, quando afirma que “O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1 Coríntios 15:45). Desta feita, quanto mais nos aproximamos de Jesus, Filho do Homem, mais nos tornamos humanos, pois estamos indo em direção ao projeto original do Deus-Trino.

Outro tema profundamente trabalhado por RUBIO é o de Palavra Encarnada, Jesus, o Verbo. Este termo “logos”, do grego, tem na verdade, todo o seu significado na compreensão judaica, pois, é no AT que é desenvolvido o tema de sabedoria de Iahweh, palavra viva, libertadora e salvadora de Deus, revelada a nós por meio do Filho.

Percebe-se então a profundidade da palavra encarnada em nossa história, pois “Jesus Cristo, é a palavra-comunicação de Deus; ele é o próprio Deus comunicande-se”. Assim o que escreve João no evangelho começa a revelar seu significado e intenção. O verbo, que é desde o princípio, se fez carne, ou seja, encarnou nossa realidade. O termo usado em João 1.14 é o “sarx”, o ser humano em sua fraqueza, caducidade e limitação.  Desta forma, o “Logos” se faz “sarx”, assumindo nossa fraqueza, sem em nada pecar, e se torna autocomunicação de Deus.

Outro tema abordado de grande significado para a fé cristã é a filiação. Neste sentido deve-se perceber a relação de profunda dependência, serviço e também a íntima relação ente Jesus e o Pai, a ponto de chamar Deus de “Abba”, papaizinho. O que temos então é uma filiação, uma profundidade de relacionamento inigualável e em eterna harmonia. João expressa isso de maneira muito clara, quando mostra a fala de Jesus “Eu e o Pai somos um”. É nesta união filiação divina, que por intermédio do Filho, somos convidados a fazer parte da família Trindade, sendo agora filhos adotivos de Abba.

Merece destaque ainda neste trabalho de RUBIO a clareza com que ele aborda o tema da infância de Jesus. Ele explica que em um primeiro momento, a fé cristã debruça sobre o evento pascal. Em seguida começa a se desenvolver todo um processo de resgate da vida de Jesus. Mais tardiamente, com o passar das gerações, surge à necessidade de elaborar os relatos da infância de Jesus. Dos evangelhos, os que dedicam parte de seus escritos a essa construção é Marcos e Lucas. Eles que trabalham com temas como genealogia, concepção virginal, local de nascimento, pastores, cânticos, relatos da infância em geral. Deste grande apanhado da infância de Jesus,  o que mais salta aos olhos e toca ao coração é a contemplação do menino. Vemos novamente Deus, se fazendo fraqueza: Deus-Ágape está conosco, vem ao nosso encontro como um de nós e oferece um caminho de encontro com o Pai. Não vem de forma autoritária e imponente, pelo contrário, se revela fraco. Como destaca RUBIO,
“O menino é fonte de esperança”.

Na parte final, RUBIO aponta os desdobramentos e da centralidade do Cristo na fé da Igreja. Destaca a importância de percebermos em Jesus sua natureza divina, mas nunca negando sua humanidade. A exaltação tanto de um quanto o outro aspecto de Jesus, torna nossa teologia deficitária, não alcançando a necessidade do homem. Na verdade, ao fazermos isso, estamos obscurecendo a revelação do próprio Verbo. Por isso, é mencionada no trabalho a afirmação da Patrística, “Jesus Cristo só salva aquilo que assume”.

Toda essa reflexão cristológica tem aplicações e reflexos profundos na forma que entendemos o Evangelho e o anúncio do Reino. Necessariamente, devem impactar nossa prática cristã diária (como eu entendo minha vida) e comunitária (refazendo nossa percepção de Igreja). Quando olhamos para o ministério de Jesus, toda sua entrega, sua revelação e missão, somos todos, homens e mulheres, convidados a viver de forma diferente, pois, o próprio Cristo, que de fez frágil por nós, assumindo nossa natureza e limitações, mostrou o que é verdadeiramente ser fiel ao Pai, nos fez Seus irmãos e nos garante, através de sua vida, a possibilidade de viver uma vida plena, no caminho a santidade e retornando a nossa humanidade antes perdida. Em Cristo temos a salvação e a restauração do humano. Por isso, somos capazes de novamente nos voltar ao outro e servir a Cristo no amor-serviço, proclamando assim o Reino de Deus que chegou a nós.

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