Nossa percepção de mundo e evangelho

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”

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farinha

Certamente muitos de nós em situação de fome e abandono poderíamos assumir, provavelmente sem peso na consciência, essa postura.

Quem sabe esta até seria uma tentativa de explicar a citação destacada no título pelo olhar da fome e do necessitado. Daquele que, desprovido do mínimo, está em posição de vulnerabilidade e, então, negocia seus padrões éticos. Porém não é isso que vemos frequentemente.

Nasci e cresci em um bairro pobre.

Minha realidade é daquele que lutou e viu os pais dedicarem a vida para conseguirem não replicar a história de suas próprias vidas nos filhos. Fui, e acho que indiretamente ainda sou, indagado por amigos e familiares com questões do tipo “porque estudar tanto? ”, “será que isso é necessário?”. Ou seja, cresci, eu e todos os meus amigos de infância, nesta realidade em que somos “educados” para sermos empregados, dominados e não questionadores, ou seja, sujeitos sem vez e nem voz. Condenados a farinha e água.

Porém a realidade que vi e vivi muitas vezes foi a de partilha. Pessoas que tinham seus chiqueiros, galinheiros, hortas e imensas árvores frutíferas compartilhando o excesso. Era uma festança só na vizinhança. Se minha casa tinha abundâncias de carambola, todos comeriam carambolas. Presenciei e corri nas ruas de muitas festas, que pessoas bem humildes, mais com imensa felicidade, chamavam seus amigos e vizinhos para participar da mesa e da singela festa, com pastel, suco de groselha e bolo feito em casa com fósforos em lugar de vela, celebrando a vida. O que isso tudo quer dizer?

Que quando temos pouco ou quase nada, surge em nós, quase que instantaneamente, a necessidade de dividir para viabilizar a vida. Essa é uma percepção libertadora, que infelizmente só nasce em muitos quando oprimidos por situações de quase miséria.

Quando ajuntamos bens, ou quando fixamos nossa razão de viver na necessidade de acúmulo, esvaziamos nossa existência de significado, perdemos nossa humanidade. Nesta situação, quando estamos apegados a coisa, é muito fácil dizer “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Em Lucas 3, temos a narração do início do ministério de João Batista. Este percebia o problema de uma sociedade que é oprimida e de uma elite que acumula. A denúncia de João era de forma veemente: “raça de víboras”, o dizia a todos. Ele parecia perceber que invariavelmente, muitos dos oprimidos almejam a posição dos opressores, pois entendem que isso é sucesso: poder, acumular, consumir e explorar sem limitações. Pode parecer um tanto contraditório, porém, é o que eu também percebo no meu dia a dia. Para que haja a mudança João anuncia o arrependimento  que gera mudança de atitude, e de início vemos a “diluição do pirão”.

Somos chamados a lutar contra nosso desejo de acúmulo. “Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira”. (Lucas 3:11). Acho que não tem forma mais clara de dizer que a vida cristã é uma vida contrária ao acúmulo e a percepção passiva da necessidade do outro. Que possamos rever nossa forma de caminhar no mundo.

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