Nossa percepção de mundo e evangelho

Igreja, exemplo de Comunidade

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Comunidade1

                Quem de nós seria capaz de viver isolado? Somos, desde o nascimento, direcionados ao outro. Esse é nosso impulso primeiro: o outro. Temos a necessidade da presença do outro, do afeto do outro, da voz… Em fim, somos seres que almejamos estar juntos. Construímos, continuamente, quem somos no contato com o outro. Ou seja, sozinho é impossível avançar na vida.

Nesse espaço que é a vida, homens e mulheres desenvolvem diversos tipos de relações e meios de estarem juntos: família, escolas, clubes, associações… Todas essas, e tantas outras instituições, são meios de se organizar para que seja “otimizada” a vida. Essas formas de relações podem ser analisadas como dois tipos básicos diferentes: comunidades e sociedades.

Sociedade é a forma de relação que mais vemos hoje em nosso tempo. É basicamente a organização de grupos, com habilidades e características específicas, que se relacionam para manter a viabilidade da vida. Essas relações são impessoais e utilitaristas, visam a troca. Estabelece-se então, um vínculo não pessoal e racional.

Comunidade é também um grupo de pessoas organizado em torno de um objetivo comum. Também há uma relação de troca, pois isso é inerente da natureza humana (na verdade, essa característica é doada a nós pela Santíssima Trindade, assim, podemos entender agora que é uma característica divinamente doada aos homens e mulheres), porém, há uma inter-relação entre os indivíduos. Assim, há uma diluição dos interesses pessoais e uma entrega de todos pelo bem coletivo.

Acho que já podemos estabelecer o seguinte: na sociedade temos relações dirigidas pela simples troca, pelo utilitarismo, ou seja, a relação deve ser necessariamente vantajosa para o sujeito da relação. Assim é impossível haver relacionamento se o “eu” não perceber que está tirando vantagem na relação. Já na comunidade o relacionamento é guiado para a unidade. Sempre o que move os relacionamentos é o outro. Há uma entrega total da capacidade e habilidade do sujeito da relação, pois, ele percebe que somente se realiza enquanto indivíduo na entrega completa do seu “eu” ao outro. Nisso ele se revela; no doar-se completamente. O amor e a entrega são característicos da comunidade.

Vendo a diferença entre comunidade e sociedade, temos que propor, com urgência, uma reflexão: Como está a Igreja? O que dirige nossos relacionamentos? Refletimos Deus para a humanidade?

ENQUANTO IGREJA, COMO ESTAMOS VIVENDO?

(…) Começo com reticências, pois, minha mente foi guiada profundamente para o interior do meu próprio ser e vejo muito de sociedade. Porém percebo a chama inapagável da comunidade. Sinto-me acolhido por Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) e assim, me lanço para o outro em segurança. Esse é o desejo que está em meu coração, o mesmo que emana da Santíssima Trindade, e minha oração é que nossa caminhada seja sempre comunitária.

Temos visto e vivido momentos de forte crise de identidade de nossa prática cristã. Estamos sofrendo com uma onda, na verdade tsunami, de “modismos” seculares. Temos uma socialização da igreja. Abandonamos o conselho de Paulo “não vos conformeis com este mundo” (Rm 12.2). Consequencias: temos uma igreja perdendo suas características, sua essência. Esquecemos de caminhar conforme o modelo de Cristo. Perdemos, cada vez mais, contato com o Evangelho. O que temos então: a institucionalização. Vemos Igrejas organizadas como empresas, verdadeiras “Igrejas S.A”, onde se procura monopolizar a fé, a mensagem e até a ação de Deus na terra.

Há uma situação inédita em nosso tempo, e a percepção desse fenômeno mostra o grau de complexidade do nosso cenário.  Hoje existe uma multiplicação de templos em nossas cidades (esse fenômeno é visível aqui no Rio de Janeiro). Perto de onde eu trabalho, tem uma rua que em um trecho de 1Km, mais ou menos, tem oito igrejas de denominações diferentes. Por que disso? Será que isso é sinal da expansão do Reino ou é aproveitamento da fragilidade humana? Parece-me, na maioria dos casos, que a multiplicação dos templos é diretamente proporcional ao encolhimento anúncio do Reino. A igreja está se tornando reflexo da sociedade e deixando de ser reflexo de Deus para a humanidade. Abandonamos, com o passar dos dias e de forma cada vez mais rápida, a missão de ser a Igreja modelo, de ser sinalizadora do Reino e anunciadora da vida em comunidade, refletindo a própria essência de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) que é Trino. E isso é uma triste constatação.

Infelizmente, caminha-se rapidamente para o descrédito da Igreja.  Esfria-se em nós, a comunidade da fé e esquecemos-nos do amor. Estamos abandonando a unidade do Corpo de Cristo. Na unidade do Corpo Cristo, há a diversidade dos dons do Espírito, estes, capacita cada membro da família de Deus ao serviço cristão, que é para serviço da comunidade e a manifestação da justiça e unidade do Reino de Deus. Essa expressão de amor e serviço ao próximo glorifica ao Pai.  Assim, ao esquecermos que devemos ser Corpo de Cristo, deixamos de ser Igreja. Faz-se indispensável, portanto, olharmos para o que nasce no coração de Deus.

O CONVITE PARA VIVERMOS EM COMUNIDADE

 “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti;

Que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”.

João 17:21

“Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum”.

 Atos 2:44

“Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham”.

 Atos 4:32

 

O que mais se destaca nos textos lidos anteriormente é a expressão da unidade de Deus. Jesus pede para que assim como Ele é um com o Pai, sejamos também “um em nós”. Isso é comunidade, é estarmos em unidade com a Trindade, fazendo parte da família de Abba. A comunidade só é possível em unidade e a unidade só é possível quando nos entregamos ao amor de Deus. Assim, conseguiremos ser “um com o Pai” e refletiremos a Trindade, onde a soma de todos é somente “um”. E isso não é diminuição do indivíduo, mais a valorização da individualidade.

Assim é Deus. O Filho revela o Pai. O Pai glorifica o Filho. O Espírito Santo direciona a humanidade para participar do amor da Trindade Santíssima, nosso Deus. Assim vemos a grandeza de Deus, quando percebemos que Ele não é eterna solidão, mas eterna comunhão e amor. Leonardo Boff expressa isso com profunda iluminação: “(…) Precisamos passar da solidão do Um à comunhão dos Divinos Três, Pai, Filho e Espírito Santo”. Logo, se o Deus que servimos é essa comunhão perfeita, nós, que somos chamados para sermos filhos e filhas do Pai, somos chamados a comunhão e unidade.

Fica claro agora que a necessidade do outro, nasce em nós como dom de Deus. “Deus é uma natureza em três Pessoas”, Pai, Filho e Espírito Santo, em eterna comunhão e inter-relacionamento, que em comunidade convivem e buscam a humanidade para fazer parte da família Trinitária. Em Deus, “devemos entender a Santíssima Trindade”, há a expressão em unidade e de maneira indivisível, da comunidade perfeita. Esse deve ser o modelo que dirige nossas vidas e nossas Igrejas. Na verdade a igreja deve ser a testemunha viva de Deus na terra, revelando essa unidade aos homens e mulheres.

Vemos isso de maneira muito clara sendo mostrado e trabalhado no Novo Testamento. Em especial aqui, citamos os textos de Atos. As palavras:  “unidos”, “tudo em comum”, “mesma mente e coração”, são como gritos aos nossos tempos. Não há a menor possibilidade de ler esses textos e ficar impassível para a realidade dos primeiros cristãos. Estes, movidos pelo amor e comunhão de Deus, entenderam a realidade Trinitária de forma a revelar essa mesma unidade em sua comunidade. Não havia necessitados entre eles. Por quê? Pois estavam em comunidade. Refletiam o amor que nasce no coração de Deus, doando-se ao outro. Nisso forma-se a unidade. O corpo de Cristo se estabelece na Terra.

                Assim, enquanto Igreja devemos relembrar que mensagem pregamos e o que estamos testificando ao mundo. Somos anunciadores da mensagem do Evangelho, que é Boas Novas aos homens, mulheres e crianças. É o anúncio que o Reino de Deus chegou, trazido por Cristo e alimentado pela força do Espírito Santo. E Reino de Deus é vivido em comunidade. Não há injustiça, nem fome, nem exploração, pois a salvação chegou e trouxe a possibilidade de novamente estarmos em Deus. Somos convidados através de Cristo a sermos filhos e filhas de Deus. Assim o que rege nossas relações é o amor, não mais o utilitarismo. Somente através de Cristo podemos alcançar tal liberdade de servir ao próximo desta forma, pois de Deus vem o amor, pois Ele é o amor.

Assim, devemos refletir se nossa forma de viver tem refletido a realidade Trinitária? Ou procuramos anular o próximo, subjugá-lo e negar sua própria existência?  Minha oração é para que todos nós possamos entrar na presença de Deus, sentindo-se como filho e filha, e desta forma testemunhar em nossa vida a comunidade e a unidade de Deus. Que possamos viver em comunidade, pois assim retornamos ao caminho certo. Pois na diversidade de muitos, faz-se forte. Na soma de todos nós, tornamo-nos somente um.

REFERÊNCIAS

– BARBOSA, Ricardo. O Caminho do Coração, ensaios sobre a Trindade e a espiritualidade cristã. 6. ed. Curitiba. Editora Reencontro, 2009.

– BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. 12. ed. Petrópolis. Editora Vozes, 2011.

– DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo. Editora Vida Nova, 2001.

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