Nossa percepção de mundo e evangelho

De dentro para fora.

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Neemias. Talvez um dos nomes e histórias mais marcantes no Antigo Testamento. Ao mencionar o seu nome todos nós associamos rapidamente seu nome ao momento histórico de pós-exílio, especificamente a reconstrução dos muros de Jerusalém. Uma história realmente marcante.

Podemos então dizer que Neemias foi o responsável pelo movimento popular que trouxe grande revolução social e econômica, e claro espiritual e religiosa em Jerusalém. Através de seus feitos e liderança ele possibilitou a reconstrução das defesas da cidade e a viabilização de Jerusalém novamente entre as grandes cidades daquela época, dando a possibilidade de se reerguer inclusive o templo.

Desse evento é que trata o livro de Neemias. Porém não quero me ater a reconstrução do muro propriamente. O que quero compartilhar é o que narra a parte autobiográfica do livro, em específico o capítulo primeiro.

Neste capítulo há um resumo de diálogos, eventos e comportamentos. A narrativa inicia-se em um diálogo de Neemias com amigo que voltara de sua terra natal. Em seguida Neemias relata seu “estado de espírito”, até acontecer de ele ter a oportunidade de falar com o Rei. Entendo que esse período de quatro meses narrado logo no início do livro (note que o evento começa no mês de quisleu, que seria meados de novembro, e a audiência com Artaxesxes dá-se no mês de nisã, meados de março ou abril) são de grande importância para todo o evento narrado.

Nesse relato há uma construção ocorrendo em Neemias. Isso mesmo. Consigo ouvir nesse primeiro capítulo uma construção intensa que ocorreu no mais profundo do seu ser. Neemias passou por uma fortificação interna, ou como destacamos no título, uma construção dos muros ocorria de dentro para fora. Quando essa construção acontece, Neemias não consegue ser mais o mesmo. Torna-se então inevitável o agir de Deus através dele.

Que eventos ocorreram neste capítulo narrado por Neemias para que esse muro interno fosse erguido?

 

 

Sensibilidade

“(…) e perguntei-lhes pelos judeus que escaparam, e que restaram do cativeiro, e acerca de Jerusalém. E disseram-me:

Os restantes, que ficaram do cativeiro, lá na província estão em grande miséria e desprezo; e o muro de Jerusalém fendido e as suas portas queimadas a fogo.
E sucedeu que, ouvindo eu estas palavras, assentei-me e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus.
[Neemias 1:2-4]

            É com esse relato que se inicia o livro. Neemias descobre a situação de sua terra natal em uma conversa com Hanani, que relata o cenário de caos e desespero de seus compatriotas.

Esse livro não seria escrito se Neemias não se importasse com o seu próximo. Se ele se mantivesse indiferente ao problema do outro, nada dessa história poderia ter ocorrido. Todavia, Neemias tinha algo diferente. Ele percebia e sentia a dor do outro como se fosse sua própria dor, ele sofria junto. Neemias era sensível ao clamor do mundo. Neemias ouve a voz de Deus brotando no mais profundo de seu ser e não ignora, ao contrário, ele atende.

Neemias poderia ficar tranquilamente na situação em que estava. Apesar de também estar longe de sua terra, ele havia alcançado uma relativa estabilidade econômica e social. Percebemos isso quando ele relata que era copeiro do Rei (v. 11). Ele participava diarimente da rotina do Rei. Tinha um bom relacionamento social e privilégios por estar tão próximo a corte real. Mesmo assim ele sente profunda agonia por receber as notícias dos muros e daqueles que estavam na Terra. Neemias chorou e lamentou por alguns dias. Não foi um sentimento raso e momentâneo. Esse quadro muda a história de Neemias e o toma por inteiro.

Da mesma forma, faz-se necessário que aconteça conosco. Precisamos estar com nossos ouvidos atentos para ouvir o clamor do outro. Neste momento existem diversas pessoas (ou grupo de pessoas) que estão clamando. Há muitos que gritam, porém já não são atendidas, pois maioria de nós está indiferente ao seu clamor. Quantos excluídos e ignorados há em nossa volta? Se ao ouvir essa pergunta não conseguimos pensar em pelo menos um grupo é provável que já tenhamos perdido totalmente nossa sensibilidade.

Hoje, mulheres, crianças, negros, tribos urbanos, mendigos, prostitutas, idosos, dependentes químicos e outros tantos excluídos e rejeitados são pessoas completamente sem muros, como estava Jerusalém. Pessoas que estão completamente sem defesas e a mercê da exploração e abusos de diversos exploradores. Temos que semelhantemente a Neemias, chorar e nos angustiar pela dor deles. Contudo não podemos parar nesse estado de sensibilidade pela dor do outro. Não é para que fiquemos continuamente em sofrimento, dor e agonia, achando que o outro morrerá em sua dor e nós sofreremos o restante da vida dessa angústia. Faz-se necessário avançar.

 

Refletindo e planejando os passos

            Nos versículos de 5 a 10 percebemos que Neemias passa esse período em contrição profunda. Ele coloca-se em oração constante, “dia e noite” (v.6), pelos seus irmãos. Imagino que a imagem do sofrimento e humilhação sofridos pelos seus irmãos tornou-se constante em seu pensamento fazendo disso um combustível em suas orações.

Nesse aspecto quero me ater no momento. A situação do povo em Jerusalém, motiva a oração de Neemias, no entanto, sua oração não era rancorosa ou de ameaça a Deus. Neemias não usa esse combustível para inflamar seu ódio ou ira contra Deus. Ele não tenta jogar em Deus a responsabilidade pela situação que ele (lembre-se que Neemias e outros da elite judaica estavam no exílio) e seus compatriotas passavam. Não vemos uma oração que exime a culpa e responsabilidade pessoal dele. Pelo contrário, Neemias passa esse período em oração de arrependimento. Ele olha para traz, revê o caminho que os fez chegar onde estavam, e percebe que haviam se distanciado dos mandamentos de Deus,

“Confesso os pecados que nós, os israelitas, temos cometido contra ti. Sim, eu e o meu povo temos pecado contra ti. Agimos de forma corrupta e vergonhosa contra ti. Não temos obedecido aos mandamentos, aos decretos e às leis que deste ao teu servo Moisés”.
Neemias 1:6-7

Neemias usa o combustível como motivação e meio de se achegar ao Deus que se move por nós, se envolvendo e se comprometendo com nossa história.

Não apenas isso. Neemias também usa esse tempo para planejar a situação por completo. Ele sabia das necessidades do povo e do    que ele precisaria fazer para que aquela situação fosse aplacada. Neemias não usa essa motivação para tomar ações precipitadas e inconsequentes. Na medida em que Neemias se achegava a Deus, seu coração se enchia de esperança. No meu entendimento, conforme seu coração percebia o chamado de Deus para sua vida, ele acalmava sua mente e conseguia perceber onde sua ação, mediada por Deus, seria relevante para seu tempo. Isso dá-se de tal forma, que quando ele chega a ter o diálogo com o Rei (veja capítulo 2), ele já tinha um plano de ação detalhado.

Não se engane. Toda a lista de documentos, prazos e necessidades que o projeto desprendia, não foi um acidente de percurso. Ele não solicitou isso tudo ao rei no estalo. Neemias não ficou achando que Deus iria fazer tudo. Pelo contrário,  ele, capacitado por Deus, estudou, pesquisou e se empenhou em saber as etapas do projeto. Ele se preparou.

Quantas vezes, temos também tentado transferir a responsabilidade organizacional e de planejamento para a Deus. Achamos que virá dos céus, uma comissão de anjos para fazer nossa parte no plano. Isso não é verdade.  Assim, muito daquilo que temos conseguido identificar como sendo o clamor do povo, não passa da esfera das emoções. Nesse percurso, passamos nossa vida por reclamar e culpar Deus dos fracassos de nossos projetos. É de importância ímpar que estejamos sim, totalmente dependente de Deus, porém faz-se necessário que façamos nossa parte.

Essa última colocação, faz-nos perceber o desfecho do capítulo que lemos. Neemias não se escondeu, ele mostra-se disponível para Deus.

 

Disponível para a ação

“(…) Faze com que teu servo acerte e consiga comover esse homem”. 
Neemias 1:11b

            Neemias nos ensina uma postura rara em nosso tempo.  Ele mostrou-se sim sensível ao outro. Percebeu o quadro que os levou até a essa situação. Viu que se fazia necessária a intervenção de Deus na história, no entanto não parou por aí na sensibilidade ou clamor. Ele coloca-se imediatamente como instrumento da ação de Deus em seu tempo. Ele coloca-se disponível.

Muitos hoje dizem sobre o que está acontecendo. Conseguem interpretar o cenário que nos trouxe ao atual estágio de degradação socioambiental. Fazem uma leitura clara das injustiças, das necessidades dos menos favorecidos. Percebem com clareza as brechas que existem “nos muros”, mas se calam por aí. Talvez por simples comodismo ou por temer que suas ações não causassem o menor efeito na situação, ou ainda  podem estar contentes com o exercício intelectual e sua apurada percepção da realidade ou até mesmo felizes por sterem um elevado comprometimento espiritual.

Neemias é diferente. Ele assume uma postura clara de ação. Ele percebe que algo urgente deve ser feito para que a situação de sua gente mude. Viu que se fazia necessário o agir de Deus em favor do povo, mas, diferente de nós em muitos aspectos, não responsabiliza Deus para que Ele mesmo haja para que ocorra tal mudança, pelo contrário, Neemias pede para fazer parte da ação de Deus na história. Ele clama que Deus o use. Ele fez-se mão e boca de Deus em favor dos menos favorecidos.

Se hoje ouvimos o clamor dos aflitos e pobres (entendamos aqui pobres como sendo qualquer grupo marginalizado em nosso sistema) devemos sair de nossa poltrona. Colocarmo-nos em profundo estudo e clamor a Deus para que nos dê ferramentas e capacidade de enfrentar o desafio. Porém, faz-se imprescindível entender que a resposta a nossas orações podem passar inevitavelmente por nós. Eu e você temos que assumir um posicionamento claro de servo ou serva de Deus neste tempo. Mesmo rompendo com o Sistema, mesmo que a luta pareça perdida, mesmo que não vejamos o resultado de nossa luta, pelo objetivo de ver o muro reconstruído, vale a luta.

Vida restaurada, muro reconstruído

            Neemias não traz esse relato autobiográfico sem propósito. O autor quis nos ensinar seu caminho de restauração interior. A vida de Neemias certamente estava com o muro esburacado, suas defesas estavam comprometidas. Havia a necessidade de uma reconstrução interior.

Ao receber a notícia de seu povo, Neemias se sensibiliza e se volta para Deus, e nesse caminho, ele tem sua vida restaurada, o que possibilitou que ele fosse agente de Deus para seu povo e para seu tempo.

Em fim, minha oração, é para que em nossas vidas, possa haver a sensibilidade pela dor do outro, a capacidade de assumir nossa culpa e nos voltarmos para Deus. Não menos importante, temos que assumir nosso papel de servos de Cristo, assumindo o chamado de Cristo que nos impulsiona a ação.

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