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“Macho e fêmea os criou”

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          O texto de Ana Maria Tepedino, professora da PUC-Rio, explora de maneira contagiante os relatos da Criação (Gênesis 1 e 2). A autora nos proporciona uma nova lente e nos conduz a pensar de uma nova perspectiva: esses textos abordam alguma superioridade de gênero ou nos apresentam o sentido de igualdade na Criação original? Com essa pergunta aos relatos da Criação somos apresentados a uma nova perspectiva dos textos, conduzindo-nos ao que ela considera a resposta correta que esses textos revelam aos dias atuais.

Destaque-se o fato de que por longos séculos de tradição judaico-cristã temos um “pesado” predomínio da figura masculina em fazer teologia e também em cargos sacerdotais eclesiásticos, o que de fato, influencia e deixa marcas profundas de sexismo em toda a história cristã. Essa forte cultura patriarcal marca o texto veterotestamentário e vemos também sua influência nos escritos do Novo testamento. Conforme a própria autora destaca, o texto de I Tm 2.13-14 já expressa uma suposta superioridade da figura masculina, contrastando com o projeto de Deus na Criação, como é destacado no relato de Gênesis 1.

Após apontar essa forte influência do olhar patriarcal nos escritos bíblicos, Tepedino nos direciona para uma nova forma de se entender o relato da Criação. Essa nova hermenêutica pretende voltar ao que Tepedino entende como sendo a idéia do texto, e dessa maneira, pode vir a ser um “divisor de águas” na forma em que abordamos e entendemos o relato da Criação no aspecto a igualdade de gêneros.

Nesse aspecto o “façamos o homem à nossa imagem” ganha uma nova leitura. A superioridade do ser masculino, sede espaço agora para a igualdade na Criação de Deus. Como Tepedino destacou “no mesmo ato criador Deus cria `Adham (humanidade) como espécie inteira, não como um indivíduo, e o desdobra como macho e fêmea”. Logo, esse é um momento lírico e romântico. O momento máximo da Criação revela todo cuidado de Deus para com a humanidade. Ele “insere em nosso DNA” a igualdade e amor ao criar a Sua própria imagem o casal, homem e mulher, que igualmente tornam-se humanidade.

Em “não é bom que `adham esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar” tende-se novamente a entender o auxiliar de maneira pejorativa, colocando-se nessa ótica a mulher como sendo menor que o homem. Como se houvesse coadjuvante nesse cenário da humanidade. Porém esse seria um entendimento completamente limitado. Esse auxiliar na verdade, está novamente ligada a idéia de alguém que lhe corresponda, ou seja, alguém que complete o outro. Logo, pode-se chegar a conclusão que no relato de Gênesis 2, o que é proposto é que a humanidade só pode ser completada no outro. O encontro e a igualdade dos gêneros trazem a totalidade da humanidade, refletindo a imagem de Deus. Nesse aspecto, homem e mulher, são “fagulhas de Deus”, ou seja, nenhum dos gêneros participa ativamente da criação. “Para ambos a origem da vida é um mistério”. Isso reflete a igualdade. Vale destacar que segundo Tepedino,

“Se afirmamos que a imagem de Deus é a relação, (homem e mulher), então a relação é central para nós. Aí encontramos o Mistério maior do qual somos fagulhas, aí encontramos a força unitiva na diferença. Somos diferentes mas temos o mesmo valor, e na medida em que nos convertemos para viver no respeito à alteridade, sublinha-se a relacionalidade que está no coração das coisas e das pessoas, porque somos todos/as fagulhas de Deus”.

            Esse entendimento abre então a necessidade de perceber a relação de igualdade dos gêneros quando do momento da Criação “macho e fêmea os criou”. A intenção do autor dessa texto, era mostrar como seria a perfeição da criação. Essa criação concomitante dos gêneros destaca sua igualdade e a mesma essência com Deus.

Quando se percebe essa igualdade, não se tentando diminuir ou infringir sobre o outro domínio, tem-se a possibilidade de reconstrução do relacionamento como o modo original criado por Deus no Paraíso. Segundo Tepedino, “ao afirmar que a imagem de Deus é a relação entre homem e mulher, estamos colocando a relação como o ponto central de nossa reflexão”.

Isso abre uma nova possibilidade relacional, pois se percebe que só encontramos o “eu” quando nos deparamos com “o outro”, ou seja, nossa humanidade só é completa em harmonia com o outro gênero. Assim, nesse encontro, onde “ultrapassa a competição e a dominação”, há espaço para o crescimento, fortalecimento, cumplicidade, afetividade, solidariedade. Começa-se então a se desenvolver a interdependência, pois, há o despertar da humanidade, assim percebe-se no outro aquilo que completa nossas deficiências. Dessa forma, já não são mais dois, porém “uma só carne”.

Para que possamos experimentar esse novo relacionamento, segundo a autora, faz-se indispensável passar por um constante processo de conversão. Isso porque o sistema patriarcal corrompeu nossa humanidade, tanto homens quanto mulheres, principalmente as mulheres que foram oprimidas durante a história, desumanizaram. Ficamos em uma longa disputa tola de poder e perdemos nossa identidade relacional. Logo é preciso uma reconstrução, uma decisão diária de superar a lógica do sistema patriarcal imposto a todos. Decidindo por essa conversão, abrimos a possibilidade de um novo relacionamento interpessoal, com o outro/outra , com o mundo, com a  natureza e com Deus.

Após essa abordagem de Tepedino temos que repensar como olhamos o/a outro/outra. É inevitável, perceberemos o quanto de nós está impregnado pelo pratriarcalismo, não só em nossa herança judaico cristã, mais também em nossa herança cultural. Fomos criados e doutrinados a viver em uma sociedade onde a disputa pelo poder e domínio são indispensáveis na auto afirmação. Só somos realizados pela opressão do/da outro/outra. Na verdade quando agimos assim negamos a criação de Deus. Entramos em um processo de “auto kill”, ou seja, em busca de afirmação do “eu” eliminamos o outro/outra e por consequência estamos anulando nossa própria existência. Nesse tipo de relacionamento, ao contrário do que o sistema patriarcal diz, não há vencedores.

Faz-se indispensável então rever nosso modelo de relacionamento homem/mulher. Perceber que só nos completamos no outro. Pois “encontrar o outro/outra na relação pessoal é necessário para que a experiência humana seja humana mesmo, pois abre a perspectiva relacional, a perspectiva dialogal”. Que possamos a cada dia olhar para a/o outra/outro e perceber como a um espelho

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6 Respostas »

  1. Gostei do texto, meu amigo.
    Tudo seria mais fácil se simplesmente cumpríssemos o mandamento que Jesus deixou: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Na verdade, quando nos casamos, e consequentemente nos tornamos uma só carne, nós não podemos ferir a nossa própria carne, ou seja, o nosso cônjuge.
    Nós aceitamos muito facilmente os padrões da nossa cultura. É claro, que toda nossa maneira de pensar é moldada pela sociedade, mas ao tomarmos consciência disso, não podemos mais aceitar este padrão para nossas vidas.
    Outro dia conversava com o pastor Fábio sobre a questão da autoridade. O mundo entende autoridade como forma de dominação, subjugação. O que não condiz com o que Deus deixou para nós nas Escrituras. Em que parte da bíblia está escrito que o homem deve maltratar sua mulher? Que ela tem que virar tapete, para satisfazer o ego masculino? O que encontro na bíblia é a imagem de um marido (Jesus) que se entregou a morte para que sua esposa (igreja) fosse livre. E a esposa deve então amar seu marido, reconhecendo e valorizando seu sacrifício, mas não por obrigação e sim por amor.
    Sejamos iguais a Jesus!

    • Imaginei que você iria gostar.
      Depois te passo o artigo original.
      Obrigado por vc e Edil nos aceitarem como irmãos.

      Abraço.

    • É isso.
      Fico feliz em saber que pessoas que trabalham com casais, como você o Edil pensam dessa forma.
      Também acho isso. É inaceitável qualquer pensamento fora da igualdade e semelhança entre gêneros.
      Depois posso passar o texto da professora Ana Tepedino pra você trabalhar mais com ele.

      Não poderia deixar de agradecer por vocês aceitarem eu e a Nane como parte dessa família que admiramos tanto.

      Abraço.
      Abraços.

  2. É bom lembrar que só se torna uma só carne nos filhos. A individualidade tanto da esposa como do marido há que existir até o fim da vida.As arestas da má educação serão superadas na vivência do casal através do amor.

    • Boa tarde.
      Não concordo com o posicionamento de achar que o casal somente se torna um nos filhos.
      Em Gênesis 2 vemos isso. Ao criar a mulher e ao uni-lá ao homem, neste momento, são os dois uma só carne.

      Se fosse a união somente consumada nos filhos, casais que não tem ou não podem ter filhos, teriam casamentos incompletos, coisa que não é verdade.

    • Quanto ao aspecto da individualidade concordo. Os dois, homem e mulher, são pessoas com personalidades diferentes, portanto devem ser respeitados suas idéias e limitações.
      No entanto devemos estar atentos para não confundir individualidade com individualismo.
      Esse segundo, tem sido a ruína de muitos casais.

      Abraço

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